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Margarida Pereira é professora no ensino helvético PDF Imprimir e-mail
02-Jan-2010
Margarida PereiraDepois de uma experiência de cinco anos no Sindicato UNIA
Margarida Pereira nasceu na África do Sul-- filha da emigração-- tem 40 anos de idade e chegou à Suíça no dia 9 de Setembro 1998 para leccionar no curso de Língua e Cultura Portuguesas. Foi destacada para o cantão de St Gallen. Formou-se na Universidade em Vila Real, e deu aulas de alemão e Inglês em Viseu e na Figueira da Foz. Entrou para o sindicato UNIA no ano de 2004. A sua licenciatura foi reconhecida pela Suíça e decidiu agora abraçar um novo desafio na sua vida no ensino helvético. Uma experiência de vida muito rica que procuramos saber como é que foi e o que pensa.
Adelino Sá  -  És capaz de nos fazer uma retrospectiva do teu percurso nestes últimos cinco anos no Sindicato UNIA?
Margarida Pereira - Foi um percurso muito interessante. Como pessoa evolui bastante, aprendi muita coisa, foi um período muito enriquecedor, não só em termos de ficar a conhecer melhor o sistema suíço, tanto a nível político, jurídico e social, mas também permitiu-me conhecer melhor a comunidade portuguesa, com o contacto directo. Aprendi a conhecer o mercado de trabalho na Suíça e os problemas dos trabalhadores. Mas também foi muito interessante em níveis pessoais, porque permitiu-me desenvolver algumas novas capacidades, assumir determinadas posições, empenhar-me a favor de pessoas que estão mais desfavorecidas, a tornar-me mais determinada e segura, de facto foi uma evolução importante…
A. S.  -  Falas-te do teu contacto com a comunidade portuguesa. Como vês a sua evolução nos próximos tempos?
M. P.  -  Penso que neste momento há uma renovação da comunidade portuguesa na Suíça.  Os portugueses continuam a entrar na Suíça em grande número, muitos deles jovens, alguns com família, portanto eu estou em crer que as características da comunidade portuguesa estão a mudar. Mas vejo também da parte de muitos desses jovens, o interesse em integrarem-se no sistema do país, em aprender a Língua local, e apesar de por vezes haver algumas opiniões menos positivas, os portugueses continuam a ser esforçados, trabalhadores, a quererem desempenhar um papel importante, é claro que também se calhar o objectivo continua a ser o mesmo, ganhar dinheiro, conseguir uma vida melhor aqui, mas em temos da evolução da comunidade portuguesa eu sou bastante optimista.
A. S.  -  O mundo financeiro viveu momentos muito conturbados que afectou muito países. Na tua opinião, a Suíça ainda é um país de estabilidade?
M. P.  -  Quer dizer, a Suíça tem sido e está a ser afectada pela crise. Basta olhar para os valores do desemprego e vemos de que mês para mês esse número não pára de crescer. E a ameaça é de que esses números vão continuar a crescer. Portanto, o desemprego é um problema grave para um país que está habituado a ter uma taxa bastante reduzida. Temos de dizer que os trabalhadores migrantes que são as primeiras vítimas do desemprego, o que é muito grave para os portugueses, porque sabemos que muitos deles perdem o emprego e ficam em situação difícil, até porque muitos deles não têm boas qualificações ou porque não dominam a Língua, e a verdade é que mercado de trabalho está um pouco difícil nalguns sectores. Temos de dizer, também, que continua haver discriminação….porque se são os migrantes a sofrer com o desemprego, é porque alguma coisa está mal. Essa discriminação afecta e muito a comunidade portuguesa… Se há trabalho somos muito bem-vindos, se não há, começamos a ser indesejados…
A. S.  -  Pensas que os Sindicatos, substituem as instituições portugueses no apoio à comunidade portuguesa?
M. P.  -  (risos) Eu não posso dizer que o ou os Sindicatos substituem as autoridades portuguesas.  Agora, o Sindicato, no seu todo, desempenha um papel muito importante na defesa dos interesses dos trabalhadores portugueses na Suíça. Podemos dizer que é uma das poucas instituições neste país que defende -- se calhar gostaríamos que defendesse ainda melhor do que defende – os interesses, o bem-estar, a posição dos trabalhadores migrantes no mercado de trabalho na sociedade suíça…
A. S.  -  Chegas-te à Suíça como professora dos cursos de Língua e cultura portuguesas. Agora voltas ao ensino, mas no sistema escolar suíço. Há uma diferença de quando chegas-te como professora e nesta tua nova etapa profissional no sistema suíço?
M. P.  -  Os quatro anos que  dei aulas de português no cantão de St Gallen, foram muito importantes. O meu primeiro contacto com a comunidade portuguesa foi através do ensino. O contacto com os pais, com as Comissões de Pais, mas também com as Associações Portugueses, porque houve alguma colaboração em algumas actividades que fizemos, acima de tudo, com as crianças e com os jovens. Na altura dei aulas até ao 11° ano. Verifiquei nessa época, que o interesse pela Língua e Cultura portuguesas era bastante grande, continua a ser grande, e penso que esta iniciativa do governo de continuar a apoiar, espero apenas que o apoio se reforce ainda maior na Suíça e no estrangeiro, apesar da mudança para o Instituto Camões, para o contacto com a Língua e com a cultura do país de origem. Agora, é óbvio, até porque tenho experiência no ensino em Portugal, comparando com o sistema de ensino na Suíça, é muito diferente. Há diferenças enormes.
A. S.  -  É importante que a Segunda geração tenha contactos com as suas raízes culturais e com a Língua?
M. P.  - É importantíssimo. É uma grande riqueza continuar a manter os laços com o país de origem e com a Língua que herdaram dos pais e dos avós. Terem a possibilidade de se moverem entre duas Línguas, entre duas culturas, é extremamente importante e extremamente enriquecedor.
A. S.  -  Pensas que é uma mais-valia para Portugal?
M. P.  -  Certamente que sim.
A. S.  -  Será que Portugal está a aproveitar essa mais-valia dos portugueses da segunda geração?
M. P.  -  Não. Nem um lado nem outro. Nem a Suíça aproveita o potencial desta segunda geração, de dominarem duas Línguas, de conhecerem duas culturas, de se poderem mover nestes dois mundos, não só os portugueses, nem Portugal aproveita esse potencial que os Luso descendentes, poderá ter para o país.
A. S.  -  No espaço de poucos anos, através da tua actividade como professora e no Sindicato, tiveste a oportunidade de conhecer diversos sectores. Penas que a comunidade portuguesa é unida?
M. P.  -  Posso dizer que há determinadas uniões. Se calhar a comunidade portuguesa também é muito diversificada. Há pessoas com gostos diferentes, com personalidades diferentes, formações diferentes, penso que a existência de determinadas associações portuguesas prova que sim, que é possível de constituírem-se, unirem-se… através das Comissões de Pais também se vê uma união e que têm interesses em comum e que conseguem reunirem-se à volta desses interesses. Se olharmos para o Sindicato, vemos um elevado número de sócios de nacionalidade portuguesa, é um dos grupos que mais cresce a nível Sindical. Eu penso que sim, que é possível organizar as pessoas e reuni-los à volta de determinados interesses. O que nos faz falta é pessoas que sejam capazes de organizarem o grupo, de organizarem a comunidade no seu todo…
A. S.  -  O teu futuro só passa pelo ensino helvético?
M. P.  -  Não sei. Não estou preparada para previr o futuro. Tomei a decisão de regressar ao ensino, também como uma posição muito importante de integração neste país. Tentar mostrar que também é possível que o sistema suíço inclua professores de nacionalidade estrangeira, professores emigrantes, porque se em muitas escolas na Suíça, Vilas e cidades, têm mais de 50% de alunos de nacionalidade estrangeira, a escola também deve trabalhar com os pais de nacionalidade estrangeira, o corpo docente também tem que ir nesse sentido de incluir professores, porque senão a palavra integração é só em termos teóricos. A integração passa por aí, incluir os estrangeiros nos sistemas oficiais, incluindo o ensino e não só. É difícil, não é fácil, é uma comunidade fechada, tem que se lutar muito, muita perseverança e muita força de vontade. Para já quero fazer esta experiencia, e depois logo se verá.
A. S.  -  Que se deve fazer para que um português consiga uma boa integração?
M. P.  -  Penso que é muito importante valorizarmos aquilo que trazemos, que é a nossa cultura, a nossa Língua, o nosso saber, a nossa experiência, e tentar partilhar com o sistema onde nós estamos. Por aqui, passa muita coisa, como aprender a Língua local para podermos comunicar, tentar de participar de uma forma activa no local onde vivemos…essa participação cívica também é muito importante no país onde nós estamos, e não pensar que “ eu sou português e só vou aquela Associação portuguesa ou àquele restaurante português”…isso é importante mas devemos partilhar nos dois sistemas. Para os pais, quero dizer que é muito importante apoiarem os seus filhos e participarem na vida escolar deles. Se os pais não participarem, os seus filhos ficam sempre em desvantagem.
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